Há algo no ar de Florianópolis que parece atrair pessoas que fazem coisas diferentes. Designers, músicos, programadores, chefs, cineastas — nos últimos dez anos, a cidade se tornou um polo informal de economia criativa que rivaliza com São Paulo e Rio de Janeiro em alguns segmentos.

O fenômeno não é acidental. Uma combinação de fatores — qualidade de vida, custo relativamente menor do que nas grandes metrópoles, uma universidade federal forte e uma comunidade de imigrantes europeus com tradição artesanal — criou um ecossistema favorável para quem vive de criar.

"Vim de São Paulo em 2019 procurando qualidade de vida e acabei encontrando também um mercado", conta uma designer de moda que hoje comanda um estúdio no bairro da Lagoa da Conceição. "Aqui tem cliente, tem colaboração, tem uma rede de pessoas que se ajudam. Não esperava isso."

O bairro da Lagoa é talvez o epicentro mais visível dessa cena. Ao longo da Avenida das Rendeiras, ateliês de artesanato convivem com estúdios de fotografia, espaços de coworking e restaurantes que funcionam como pontos de encontro da comunidade criativa. Mas o fenômeno se espalha por outros bairros — o Centro Histórico, o Ribeirão da Ilha, o Campeche.

A Universidade Federal de Santa Catarina tem um papel importante nessa história. O curso de Design da UFSC é um dos mais respeitados do país, e muitos ex-alunos optam por ficar na cidade após a formatura. A universidade também abriga incubadoras e laboratórios que conectam pesquisa acadêmica e mercado.

O poder público começa a perceber o potencial econômico desse setor. A prefeitura lançou no ano passado um programa de incentivo à economia criativa que inclui subsídios para aluguel de espaços, acesso a crédito e apoio para participação em feiras nacionais e internacionais. Os resultados ainda são modestos, mas o sinal é positivo.

O desafio, como em qualquer cidade que cresce, é manter o que a tornou atraente. O aumento dos aluguéis, impulsionado pela chegada de novos moradores, já começa a pressionar os profissionais criativos que não têm renda estável. "Se a cidade ficar cara demais, vai perder o que a faz especial", alerta uma artista plástica que mora no Campeche há 15 anos.