Quando a chef Mariana Silveira abriu seu restaurante no Ribeirão da Ilha há três anos, ela tinha uma missão clara: resgatar a culinária açoriana que seus avós praticavam e que estava desaparecendo das mesas florianopolitanas. O que ela não esperava era que o projeto virasse um fenômeno.

"As pessoas tinham saudade de uma comida que nem sabiam que tinham saudade", ela conta, enquanto prepara um caldo de peixe com ervas que segue uma receita do século XIX. "Quando provam, reconhecem. É uma memória que está no corpo, não na cabeça."

A herança açoriana em Florianópolis é profunda. Os primeiros colonizadores chegaram às ilhas do Arquipélago dos Açores em meados do século XVIII, trazendo consigo não apenas a língua e os costumes, mas também uma tradição culinária baseada no peixe, no marisco, no milho e nos laticínios. Ao longo dos séculos, essa cozinha se misturou com influências indígenas e africanas, criando uma identidade gastronômica única.

Mas a modernização e a chegada de redes de fast food foram apagando essa memória. Pratos como o pirão de peixe, a tainha recheada, o cuscuz de camarão e o berbigão na manteiga foram perdendo espaço nas casas e nos restaurantes.

Agora, uma nova geração de chefs está mudando esse quadro. Além do restaurante de Mariana, outros três estabelecimentos abriram nos últimos dois anos com proposta similar — resgatar a culinária tradicional da ilha com técnicas contemporâneas. O movimento ganhou visibilidade quando um desses restaurantes foi incluído em uma lista de melhores restaurantes do Brasil elaborada por uma revista especializada.

"Não é nostalgia pela nostalgia", explica um dos chefs do movimento. "É entender que essa cozinha tem valor, tem identidade, tem história. E que pode ser deliciosa quando bem executada."

O interesse dos turistas também ajuda. Florianópolis recebe mais de 2 milhões de visitantes por ano, e muitos deles buscam experiências gastronômicas autênticas. A culinária açoriana, que até pouco tempo era invisível para os guias turísticos, começa a aparecer como um diferencial da cidade.